Os Vedas são os textos mais antigos da Índia, compostos em sânscrito védico e passados de memória, de geração em geração, por séculos antes de serem escritos. A astrologia védica nasceu ao lado deles como uma disciplina de apoio, o Jyotisha, que servia para marcar o tempo certo dos rituais. O mapa de nascimento, com signos, casas e planetas, chegou mais tarde e foi se formando ao longo de mais de mil anos.
O que são os Vedas
A palavra veda vem da raiz sânscrita vid, que significa saber. Veda quer dizer conhecimento.
São quatro:
- Rigveda: o mais antigo, com 1.028 hinos organizados em dez livros.
- Yajurveda: as fórmulas em prosa que o sacerdote recitava nas oferendas.
- Samaveda: 1.549 estrofes, quase todas tiradas do Rigveda.
- Atharvaveda: cerca de 760 hinos, dos quais uns 160 também estão no Rigveda.
Os pesquisadores situam a maior parte do Rigveda entre 1500 e 1200 a.C., e alguns ampliam essa faixa para 1700 a 1100 a.C. Os outros três Vedas vêm de cerca de 1200 a 900 a.C.
Durante séculos, os Vedas existiram só na voz de quem os recitava. Técnicas de memorização garantiam que cada sílaba fosse repetida igual, e o registro por escrito só veio depois de 500 a.C. Para a tradição indiana, os Vedas são shruti, "o que foi ouvido": um conhecimento recebido pelos sábios, sem autor humano.
Cada Veda tem quatro camadas, escritas em épocas diferentes:
| Camada | O que contém | Época aproximada |
|---|---|---|
| Samhitas | Os hinos e mantras | A partir de 1500 a.C. |
| Brahmanas | Explicações em prosa sobre os rituais | De 900 a 700 a.C. |
| Aranyakas | Reflexões sobre o sentido dos rituais | Depois dos Brahmanas |
| Upanishads | Textos filosóficos | A partir de 800 a.C. |
Os seis Vedangas
Para preservar e usar os Vedas, surgiram seis disciplinas de apoio, os Vedangas, palavra que quer dizer "membros do Veda". Cada uma cuidava de um aspecto:
| Vedanga | Cuida de |
|---|---|
| Shiksha | Pronúncia |
| Chandas | Métrica dos versos |
| Vyakarana | Gramática |
| Nirukta | Origem e sentido das palavras |
| Kalpa | Instruções dos rituais |
| Jyotisha | Astronomia e contagem do tempo |
O Jyotisha é a raiz do que hoje chamamos de astrologia védica. O nome vem de jyoti, luz, e costuma ser traduzido como "ciência da luz" ou "ciência dos astros".
O Jyotisha começou como calendário
O texto mais antigo dessa disciplina é o Vedanga Jyotisha, atribuído pela tradição a um sábio chamado Lagadha. Ele existe em duas versões: uma ligada ao Rigveda, com 36 versos, e outra ao Yajurveda, com 43.
O objetivo era prático. O texto ensina a acompanhar o Sol e a Lua para fixar as datas dos rituais. Kim Plofker, que estuda a história da matemática e da astronomia indianas, observa que esse Jyotisha antigo trata do calendário e não diz nada sobre os planetas.
A data do Vedanga Jyotisha é discutida. Alguns pesquisadores, entre eles R. Kochhar, o situam entre 1370 e 1150 a.C., pela posição do solstício que ele descreve. Outros, como Michael Witzel, defendem que a redação é dos últimos séculos antes de Cristo, pelo estilo do texto.
As estrelas lunares vêm dessa época
A parte mais antiga da astrologia védica que ainda usamos são as nakshatras, as estrelas lunares. O céu é dividido em trechos que a Lua percorre, um por dia, ao longo do mês.
O Atharvaveda traz uma lista de 28 nakshatras. A Taittiriya Samhita e o Shatapatha Brahmana registram 27. Quando o céu passou a ser dividido em partes iguais, ficou a conta de 27 trechos de 13°20' cada, e a nakshatra Abhijit saiu da divisão.
Quando surgiram o mapa e os signos
O mapa de nascimento, com os 12 signos, as casas e os planetas lidos para uma pessoa, aparece nos textos indianos séculos depois dos Vedas.
O marco é o Yavanajataka, nome que quer dizer "os ditos dos gregos". Ele foi traduzido do grego para o sânscrito no século 2 d.C. e é considerado o primeiro tratado de astrologia em sânscrito. A versão que chegou até nós é a de Sphujidhvaja, em verso, de 270 d.C.
A origem das ideias que a Índia recebeu nesse período é debatida. David Pingree defendeu uma influência que viria da Mesopotâmia. Yukio Ohashi contestou, lembrando que a contagem do tempo védica é anterior a esse contato. Kim Plofker considera possível que cada tradição tenha se desenvolvido por conta própria. O consenso é que, a partir desse encontro, a astrologia indiana passou a combinar o que já tinha, como as nakshatras, com o mapa e os signos.
Os grandes clássicos
Nos séculos seguintes, a astrologia védica ganhou os textos que até hoje formam a sua base.
Varahamihira viveu em Ujjain, no século 6 d.C. Escreveu o Pañcasiddhantika, que resume as cinco escolas de astronomia conhecidas na Índia da época, o Brihat Samhita, sobre astrologia geral, e o Brihat Jataka, dedicado ao mapa de nascimento.
O Brihat Parashara Hora Shastra é atribuído pela tradição ao sábio Parashara e é o texto mais citado da astrologia védica. Os historiadores datam a forma que conhecemos entre os séculos 7 e 8 d.C. Ele descreve dezenas de sistemas de períodos planetários. O mais usado até hoje é o Vimshottari, um ciclo de 120 anos dividido entre os nove planetas.
Do Jyotisha ao KP
No século 20, o astrólogo indiano K. S. Krishnamurti (1908-1972) criou o sistema KP. Ele partiu da base védica, com as nakshatras, o zodíaco sideral e o ciclo de 120 anos, e dividiu cada estrela em partes menores, para responder se um evento acontece e quando. Saiba mais em quem foi Krishnamurti.
Por isso as duas idades convivem. O Jyotisha tem cerca de três mil anos de história. O KP tem cerca de 70.
Linha do tempo
| Época | O que aconteceu |
|---|---|
| 1500 a 1200 a.C. | Composição da maior parte do Rigveda |
| 1200 a 900 a.C. | Os outros três Vedas, com as primeiras listas de nakshatras |
| Data discutida | Vedanga Jyotisha, o calendário dos rituais |
| Depois de 500 a.C. | Os Vedas passam a ser escritos |
| Século 2 d.C. | Tradução do Yavanajataka para o sânscrito |
| Século 6 d.C. | Varahamihira escreve seus tratados |
| Séculos 7 e 8 d.C. | Forma atual do Brihat Parashara Hora Shastra |
| Século 20 | K. S. Krishnamurti cria o sistema KP |
O que isso muda para quem olha o próprio mapa
Quando você vê a sua nakshatra da Lua, está olhando para a parte mais antiga dessa história, a mesma divisão do céu citada nos Vedas. Quando vê em que período planetário está, usa o ciclo de 120 anos descrito no texto atribuído a Parashara.
A Vedik calcula o seu mapa com motor próprio, pela posição dos astros no minuto em que você nasceu, e lê os períodos pelo método KP. A tradição dá o método. A última palavra é sempre sua.
Para entender como esse sistema funciona hoje, veja astrologia védica: o que é e a diferença entre astrologia védica e ocidental.
Obras de referência
- David Pingree. The Yavanajātaka of Sphujidhvaja. Cambridge (EUA): Harvard University Press, 1978. Harvard Oriental Series, volume 48.
- Kim Plofker. Mathematics in India. Princeton: Princeton University Press, 2009.
- T. S. Kuppanna Sastry e K. V. Sarma (org.). Vedāṅga Jyotiṣa of Lagadha in its Ṛk and Yajus Recensions. Nova Délhi: Indian National Science Academy, 1985.
As datas e atribuições deste texto seguem o que esses autores e outros pesquisadores publicaram, reunido em enciclopédias de referência. Onde eles divergem, o texto mostra as posições.



