A astrologia começou na Mesopotâmia, há quase quatro mil anos, como uma forma de ler sinais do céu para o rei e para o reino. O mapa de nascimento de uma pessoa só apareceu no século 5 a.C., na Babilônia, e ganhou o ascendente e as casas no Egito sob domínio grego. De lá, viajou para a Índia, para o mundo islâmico e para a Europa, e no século 20 chegou às páginas de jornal.
Mesopotâmia: o céu como mensagem para o rei
Os primeiros textos organizados de leitura do céu são babilônicos, de cerca de 1800 a.C. Os sacerdotes observavam a Lua, o Sol, os planetas e os eclipses e registravam o que acontecia no reino depois de cada sinal.
Esses registros viraram uma grande coleção, o Enuma Anu Enlil, reunido até o século 16 a.C. São 70 tábuas de argila em escrita cuneiforme, com cerca de 7.000 presságios.
Nessa fase, a astrologia olhava para o coletivo. A pergunta era o que o céu dizia sobre o rei, as colheitas, as guerras e o bem-estar do povo. Ninguém fazia o mapa de uma pessoa comum.
Também foi na Babilônia que surgiu a divisão do céu em 12 partes de 30 graus, a base do zodíaco. Ela só foi aperfeiçoada depois da queda do império babilônico, em 539 a.C. No século 4 a.C., os astrônomos da região já calculavam com antecedência a posição dos planetas.
O primeiro mapa de uma pessoa
No século 5 a.C., a leitura do céu passou do reino para o indivíduo. Os horóscopos mais antigos que conhecemos são de 410 a.C. e vêm das cidades de Babilônia e Nippur. Eles registram onde estavam a Lua e os planetas no nascimento de uma criança.
Francesca Rochberg, que estuda a astronomia da Mesopotâmia, reuniu e traduziu os horóscopos cuneiformes que sobreviveram. Eles mostram a mesma lógica dos presságios antigos, agora aplicada à vida de uma pessoa.
Egito grego: nasce o ascendente
Em 332 a.C., Alexandre, o Grande, conquistou o Egito. A cidade de Alexandria virou um ponto de encontro entre o saber babilônico, o egípcio e o grego.
Entre o fim do século 2 e o início do século 1 a.C., os astrólogos de Alexandria juntaram o zodíaco babilônico com os decanos egípcios, uma divisão do céu em 36 partes. Dessa mistura nasceu a astrologia de mapa como a conhecemos, com:
- O ascendente, o ponto do zodíaco que subia no horizonte na hora do nascimento.
- As 12 casas, cada uma ligada a uma área da vida.
- Os planetas nos signos, lidos para uma pessoa e um momento.
A própria palavra horóscopo vem desse período. Em grego, hōroskopos quer dizer "marcador da hora", e era o nome do ascendente.
Os astrólogos da época atribuíam a origem do sistema a Hermes Trismegisto e aos ensinamentos do faraó Nechepso e do sacerdote Petosíris. Os textos que chegaram até nós são de autores como Doroteu de Sídon e Vettius Valens. No século 2 d.C., Cláudio Ptolomeu escreveu o Tetrabiblos, que se tornou a base da astrologia ocidental.
A viagem para a Índia
No século 2 d.C., um tratado grego foi traduzido para o sânscrito com o nome de Yavanajataka, "os ditos dos gregos". Na Índia, o mapa encontrou uma tradição antiga de contagem do tempo, o Jyotisha, e as estrelas lunares, as nakshatras. Dessa combinação veio a astrologia védica. Contamos essa parte em detalhe em o que são os Vedas e de onde nasceu a astrologia védica.
Bagdá e o mundo islâmico
No século 8, sob o califado abássida, Bagdá reuniu tradutores na Bayt al-Hikma, a Casa da Sabedoria. Textos gregos, persas e indianos foram vertidos para o árabe, e a astrologia continuou a ser estudada e ampliada no mundo islâmico entre os séculos 7 e 13.
O nome mais conhecido desse período é Abu Ma'shar, que viveu entre cerca de 787 e 886. Os livros dele foram lidos na Europa por séculos.
Europa: das traduções às universidades
No século 12, a Europa passou a traduzir do árabe para o latim os textos de astronomia e astrologia. O Tetrabiblos de Ptolomeu ganhou versão latina em 1138, por Platão de Tivoli. No século 13, a astrologia já fazia parte do estudo da medicina.
Nos séculos 17 e 18, a nova astronomia mudou a forma de explicar o céu, e a astrologia perdeu o lugar que tinha na ciência da época. Ela seguiu viva fora da academia, em livros, almanaques e consultas.
Século 20: o jornal e o método
Em agosto de 1930, o jornal britânico Sunday Express quis publicar o mapa da princesa Margaret, que tinha acabado de nascer. Quem escreveu foi o astrólogo R. H. Naylor. O texto saiu em 24 de agosto, três dias depois do nascimento, e fez tanto sucesso que o jornal pediu mais previsões. Pouco depois, a coluna passou a ser organizada pelos 12 signos solares. Era o começo do horóscopo de jornal que conhecemos hoje.
O horóscopo de jornal usa só o signo do Sol. O mapa usa o céu inteiro do nascimento. Veja a diferença em horóscopo x mapa astral.
No mesmo século, na Índia, o astrólogo K. S. Krishnamurti (1908-1972) criou o sistema KP, que parte da base védica e divide o céu em partes menores para responder se um evento acontece e quando. Saiba mais em quem foi Krishnamurti.
Linha do tempo
| Época | O que aconteceu |
|---|---|
| Cerca de 1800 a.C. | Primeiros textos babilônicos de leitura do céu |
| Até o século 16 a.C. | Reunião do Enuma Anu Enlil, com cerca de 7.000 presságios |
| Depois de 539 a.C. | Zodíaco de 12 signos aperfeiçoado na Babilônia |
| 410 a.C. | Os horóscopos de nascimento mais antigos que conhecemos |
| Séculos 2 e 1 a.C. | Alexandria cria o mapa com ascendente e casas |
| Século 2 d.C. | Tetrabiblos de Ptolomeu e tradução do Yavanajataka na Índia |
| Século 8 | Traduções em Bagdá, na Casa da Sabedoria |
| 1138 | Tetrabiblos traduzido para o latim |
| 1930 | Primeira coluna de horóscopo do Sunday Express |
| Século 20 | K. S. Krishnamurti cria o sistema KP |
O que fica dessa história
Cada época somou uma camada. A Mesopotâmia deu a observação do céu e o zodíaco. Alexandria deu o mapa de uma pessoa, com ascendente e casas. A Índia somou as nakshatras e os ciclos de tempo. O mundo islâmico e a Europa guardaram e ampliaram esse saber.
A Vedik vem dessa linha. Um motor próprio calcula a posição dos astros no minuto do seu nascimento, e o método KP lê os períodos do seu mapa. A tradição dá o método. A última palavra é sempre sua.
Obras de referência
- Francesca Rochberg. Babylonian Horoscopes. Filadélfia: American Philosophical Society, 1998.
- Francesca Rochberg. The Heavenly Writing: Divination, Horoscopy, and Astronomy in Mesopotamian Culture. Cambridge: Cambridge University Press, 2004.
- Nicholas Campion. A History of Western Astrology, volume 1: The Ancient and Classical Worlds. Londres: Continuum, 2008.
- David Pingree. The Yavanajātaka of Sphujidhvaja. Cambridge (EUA): Harvard University Press, 1978.
As datas e atribuições deste texto seguem o que esses autores e outros pesquisadores publicaram, reunido em enciclopédias de referência.



